A neblina era tão densa que eu mau conseguia ver os carros que passavam. Eram nove horas e vinte e três minutos e eu ainda estava parada ali, esperando que algo na minha vida se resolvesse, ou ao menos que ele chegasse. Marcamos as nove e a sua quase meia hora de atraso já tinha esgotado minha paciência, mas eu não tinha o que fazer ou pra onde ir, e eu sabia de certa forma que ele iria vir, ele sempre vinha.Sentei no meio fio e respirei fundo, minha mente começou a vagar para o dia anterior quando meu pai furioso atirou minhas coisas no meio da rua e mandou que eu saísse, eu ainda não tinha me decidido em como eu me sentia a respeito disso, a final meu pai sempre fez questão de deixar bem claro que para ele eu não passava de um estorvo, ele só estava esperando uma desculpa qualquer para me jogar na rua. Eu posso dizer sim, que me sentia aliviada por sair daquele inferno, de me livrar daquela humilhação, mas o alivio era substituído por uma sensação de vazio. Eu estava completamente sem norte, não tinha para onde ir, ou onde ficar e ele prometeu me ajudar.
O 'ele' a quem me refiro é um garoto que eu conheço desde criança, uma amizade colorida, um irmão. O único que nunca me deixou sozinha, que nunca se mostrou egoísta, que sempre se preocupou comigo. Na adolescência nós tivemos nosso momento de paixão desenfreada, momentos de loucura e que obviamente acabaram com lágrimas, mas lembranças tão boas ficaram, parece que foi ontem que meu coração disparou com o simples toque de sua mão na minha cintura, ou que passamos a noite rindo depois de ter experimentado um cigarro de maconha. Mas tudo passa, ele teve que morar longe por um tempo e dois anos depois voltou com uma namorada que parecia mais uma princesa, confesso que morri de ciúmes mas que no fundo eu sabia que ele merecia tudo o que lhe fizesse feliz. Acho que posso lhe confessar que nunca deixei de amá-lo, e não sei por que diabos continuei sendo sua fiel amiga, como um cão solitário e abandonado implorando carinho, migalhas de pão, me sentia como o cão sem raça que fica fora de casa no frio e inveja a vida da cadelinha pura que tem todos os regalos. Talvez fosse uma forma de me punir por seja lá o que for, talvez fosse apenas um vício mantê-lo por perto, talvez eu ainda tivesse esperança que ela fosse embora, talvez eu seja fraca de mais, ou talvez ainda não tenha achado o meu caminho e ele seja a unica luz nessa minha vida sombria.
Um cachorro se aproximou e sentou ao meu lado, tinha os olhos tristonhos e profundo que me encaravam como que num pedido de desculpas, de alguma maneira aquele olhar me causou um arrepio, cruzei os braços e encarei o asfalto e um uivo fininho como um lamento, escapou do cachorro e aumentou gradativamente, então eu bati o pé e mandei que fosse embora, ele se levantou, deu uma lambida na minha mão e me olhou novamente, depois virou-se e saiu correndo.
Eu me levantei, e comecei a andar, já faziam mais de 40 minutos e todas as minhas esperanças se esvaíram, depois de dez minutos de caminhada, próximo a casa dele, foi que eu ouvi as sirenes, foi que eu vi a moto virada perto da calçada, o caminhão enviesado e um corpo envolto por uma poça de sangue no meio da avenida, e eu percebi que o corpo tinha os mesmos cachos escuros, a mesma pele clara, os mesmos lábio que um dia me pertenceram...e lá longe próximo ao corpo eu reconheci os olhos tristonhos do cachorro negro que há pouco havia se sentado ao meu lado de baixo da neblina espessa de um domingo que aos poucos desmoronava sobre mim.

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